sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O GÓTICO MOURISCO DE DOM MANUEL

Benedito Ramos

O Abade de Suger, criador e inovador do Estilo Gótico, apelidado vulgarmente de Estilo dos Godos, certamente, nunca pensou que mesmo após a sua morte, aquela invenção arquitetônica fosse tomada por tanto ecletismo. Foi o caso do Gótico Tardio Português ou como ficou sendo conhecido, o Estilo Manuelino. Criado sob a responsabilidade dos arquitetos João de Castilho e Diogo Boitac o estilo floresceu a partir do século 16, em Portugal, no reinado de D. Manoel I(1494-1521), na época das grandes navegações.

É, talvez, modéstia demais tratar o estilo apenas como Gótico. Deste possui, com certeza a verticalidade própria, as nervuras dos tetos, os pináculos e a estrutura de apoio das paredes. No entanto, quando vamos a busca das ogivais janelas rendilhadas, de curvas amorcegadas e ornamentos apocalípticos, encontramos uma série de adornos materializados nas dominações almorávidas que permeou metade de Portugal e Espanha. Daí os portais morbiliformes, enrugados por múltiplas conchas marinhas, de concepção românica, baixos e profundos. Janelas em calcário macio, com talho vazado expressando uma folhagem exótica atada por cordéis sinuosos numa imagem labiríntica, como arabescos de mesquitas.

O lado português fica por conta dos entremeios brasonados com a esfera armilar, a Cruz da Ordem de Cristo, a mesma dos panos das caravelas e os pilares de colunetas trançadas à maneira salomônica do Baldaquim de Bernini, do Vaticano.

Mas é a liberdade do cânon gótico que faz do Estilo Manuelino uma atração à parte. Nada é tão peculiar do que os portais duplos, em forma de trevo ou folhagem. A ausência do sentimento tétrico que Vitor Hugo sentiu ao escrever “Nossa Senhora de Paris”, como declara, motivado pela inscrição de um anagrama grego sobre a morte, feita em uma das paredes da catedral. Esse gótico perdeu o ranço teológico com que Suger concebeu o estilo despojado e triste voltado para diminuir o fiel diante da grandeza de Deus. Ainda era preciso “ter fé para poder compreender”, como dizia Santo Agostinho. E isto ainda prevalecia mesmo no final da Idade Média nos tempos tomistas, não em Portugal, um Odisseu do século 16.

O mais interessante é que o Estilo Manuelino, que parece ter sido forjado por elementos góticos, está presente até nos pelourinhos provinciais ou nas fachadas das construções civis, mesclado com o Barroco ou Rococó. Longe de toda a formalidade, Portugal concebeu um gótico mourisco, na essência desta expressão, como diríamos no Brasil nordestino, “rajado” como um gato cinza escuro, porém muito particular.

Um comentário:

Rui disse...

Caro Professor Benedito.
Deixe-me acrescentar uns comentários sobre o "Manuelino".Este representa um projeto político.É uma arquitectura simbólica do novo poderio de Portugal. Por isso tem elementos mouriscos e maritímos,além de acolher algumas manifestações renascentistas. Uma súmula do Portugal de então.Existe o "manuelino" inicial representado pelos Jerónimos e uma segunda fase pela Torre de Belém.