terça-feira, 15 de maio de 2012

AS TENTAÇÕES DE SANTO AGOSTINHO

Benedito Ramos



Nenhum personagem da história representa melhor a Idade Média, principalmente o período de transição da idade antiga, do que Agostinho de Hipona. Nascido em 313 d.C. este santo cristão conhecido como um dos doutores da Igreja, assistiu de perto o ocaso do Império Romano no ocidente. Viu o cidadão romano perder as suas referências diante da corrupção e da imoralidade reinante e ficar a deriva de uma pátria moribunda. Fez parte deste mundo, juntamente com Mônica, sua mãe e experimentou também o gosto de ignorar o pecado à luz moral de seu tempo. Em sua frase mais marcante, aquela que guiou a alta idade média, colocou a fé adiante da razão. No entanto sua inquietude com o mundo, registrada em sua obra, revela um homem obstinado por conhecer a verdade que ele próprio diz rejeitar em favor da fé.

Mais do que “As Confissões”, “A Cidade de Deus”, um livro menos conhecido, faz um relato fiel da Roma desesperada, agredida e agitada pelas hostes inimigas. Começa pelo saque de 410 por Alarico, o Rei dos Visigodos, onde a antiga capital experimentou privações e miséria. É quando Agostinho questiona a validade dos deuses imperiais que não impediram tal fatalidade. E isto é extremamente importante para a história, pois demonstra claramente que mesmo sendo já naquela época, a religião oficial, o cristianismo ainda disputava um alicerce de crenças e cultura que não se apagaria pela coerção da Igreja. O paganismo é o grande vilão que assustará a Igreja, na chamada “Idade das Trevas” e que seria combatido ferozmente pela Santa Inquisição.

Mas é, sobretudo, diante do pecado, este fantasma que persegue Agostinho durante toda a sua vida, que ele se debruça para traduzir a sua essência, esmiuçar a sua origem, no seu mais profundo questionamento ou justificativa, talvez, a tudo o que havia declarado nas suas “Confissões”, obra terminada em 398: “Arrebatava-me os espetáculos teatrais, cheios de imagens das minhas misérias e de alimento próprio para o fogo das minhas paixões”.(Livro III, 2.2) Uma prova do quanto Roma, no seu erotismo, fascinava sua gente. E Agostinho era um desses cujo fogo ardia de desejo a ponto de declarar: “Era para mim mais doce amar e ser amado, se podia gozar do corpo da pessoa amada(...)” (Livro III-1.1)

Não era fácil manter a castidade que a Igreja necessitava. Não, simplesmente a castidade sexual, a abstinência do coito, porém a do pensamento, da malícia, do erotismo e da libido que já havia experimentado. Como fazer coabitar a pureza com a malícia plantada e germinada dentro de sua alma? Como evitar o desejo, se um simples lampejo de prazer fazia tremer seus nervos enquanto seu sexo se revelava vivo? Não seria a razão para que tenha dedicado dez capítulos do livro “A Cidade de Deus” para tratar da “libido”? O texto é uma outra confissão de quem não consegue compreender o seu próprio corpo. Um questionamento a Deus como se Este tivesse criado o pecado. E finalmente um elogio ao pecado, como a essência da criação: “Não temos a menor duvida de que o crescer, multiplicar-se e povoar a terra, segundo a bênção de Deus, é dom do matrimônio, instituído por Deus desde o princípio, antes do pecado, ao criar o homem e a mulher. O sexo, evidentemente, supõe algo carnal. E a essa obra de Deus seguiu imediatamente sua bênção.”(Livro II- Cap. XXII)

Esta, no entanto, é apenas uma questão que cede lugar, a um problema inda maior, no entendimento do Santo: “A libido surgiu depois do pecado e, depois do pecado, nossa natureza, pudica, despojada do domínio que tinha sobre o corpo, sentiu esse desarranjo, adverti-o, envergonhou-se dele e cobriu-o”. (Cap.XXI) Qual o sentido real que tem em mente acerca do significado de libido? Para ele é muito mais que o desejo, mais do que a ereção. É ter consciência do que se passa consigo mesmo. É algo que ultrapassa o lado fisiológico e se instala no aspecto moral e se mistura com o erotismo que é fruto do homem malicioso que conheceu o pecado. Um questionamento muito parecido com o que Paulo faz em sua Carta aos Romanos, capítulo 7 versículo 7: “(...) mas eu não conheci o pecado senão por intermédio da lei. Pois eu não conheceria a concupiscência se a lei não dissesse: Não cobiçarás.” Portanto, a considerar este enunciado, se o pecado é uma conseqüência da lei, logo a libido também o é. Isto, levando em conta, que para Agostinho a libido só deixa de ser fisiológica, pela plena razão do homem sobre o seu ato. Caso contrário, o desejo sexual não viria acompanhado do erotismo. É como se para ele, a bênção de Deus para a união entre o casal no Éden não previsse o pecado. Ou se o sexo não representasse (ou não pudesse representar) o prazer e sim apenas a função de procriar. E isto pode até ser assim compreendido sobre o aspecto teológico, mas não sobre o lado humano. Deus diz apenas: “crescei e multiplicai”. O resto é uma conseqüência que Agostinho não consegue digerir. Indo mais além, este pensador traz consigo o problema ao seu próprio tempo e a si mesmo. Imagina como pode ser pecado algo inerente à sua natureza humana. Uma força que vai além de toda a espiritualidade que tanto buscava: “É verdade que a ordem natural ao corpo antepõe o espírito; contudo, o espírito domina com maior facilidade o corpo que a si mesmo. Mas a libido de que tratamos é tanto mais vergonhosa quanto o ânimo não tem poder absoluto sobre si mesmo, para não agradar-lhe, nem sobre o corpo, para mover-lhe a vontade, não a libido, que mova tais membros vergonhosos.”(Cap.XXIII) Para ele a libido é a própria ereção. Isto deveria ser uma angústia em sua vida a medida em que tentava vencer seu próprio desejo sexual, para viver em harmonia com Deus.

Agostinho reconhecia que não tinha poder sobre si mesmo em relação a seu próprio desejo, e a sua própria libido. E este tormento é revelado com a profundidade pueril de um adolescente que não consegue compreender suas transformações. Envergonha-se do funcionamento de seu corpo. Talvez por isso declarasse: “(...) eu provo do mal que reprovo.” Se não era possível vencer o pecado, pelo menos, tentar compreendê-lo. E lá no Cap. XXIV, finalmente chega a conclusão de que a libido é apenas fruto da malícia e do erotismo vulgar quando escreve: “Ali(se referindo ao Éden) o homem semearia e a mulher receberia o sêmen, quando e quanto fosse necessário, sendo os órgãos da geração movidos pela vontade, não excitados pela libido.” Um jogo de palavras que substitui “libido” pela simples “vontade”. O que sabemos não ser verdade. Não basta a vontade, sem a libido e sem a ereção para que se tenha um ato sexual. O que Agostinho queria, realmente, era conjugar a relação marital a uma esfera de santidade que estivesse acima daquilo que considerava tão vergonhoso: a libido. Sua busca incansável pela santidade esbarrava em sua própria natureza humana e pecaminosa. Portanto a melhor forma de encarar o pecado era admitir que ele só existia por causa da lei.





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