quinta-feira, 16 de agosto de 2012

terça-feira, 15 de maio de 2012

AS TENTAÇÕES DE SANTO AGOSTINHO

Benedito Ramos



Nenhum personagem da história representa melhor a Idade Média, principalmente o período de transição da idade antiga, do que Agostinho de Hipona. Nascido em 313 d.C. este santo cristão conhecido como um dos doutores da Igreja, assistiu de perto o ocaso do Império Romano no ocidente. Viu o cidadão romano perder as suas referências diante da corrupção e da imoralidade reinante e ficar a deriva de uma pátria moribunda. Fez parte deste mundo, juntamente com Mônica, sua mãe e experimentou também o gosto de ignorar o pecado à luz moral de seu tempo. Em sua frase mais marcante, aquela que guiou a alta idade média, colocou a fé adiante da razão. No entanto sua inquietude com o mundo, registrada em sua obra, revela um homem obstinado por conhecer a verdade que ele próprio diz rejeitar em favor da fé.

Mais do que “As Confissões”, “A Cidade de Deus”, um livro menos conhecido, faz um relato fiel da Roma desesperada, agredida e agitada pelas hostes inimigas. Começa pelo saque de 410 por Alarico, o Rei dos Visigodos, onde a antiga capital experimentou privações e miséria. É quando Agostinho questiona a validade dos deuses imperiais que não impediram tal fatalidade. E isto é extremamente importante para a história, pois demonstra claramente que mesmo sendo já naquela época, a religião oficial, o cristianismo ainda disputava um alicerce de crenças e cultura que não se apagaria pela coerção da Igreja. O paganismo é o grande vilão que assustará a Igreja, na chamada “Idade das Trevas” e que seria combatido ferozmente pela Santa Inquisição.

Mas é, sobretudo, diante do pecado, este fantasma que persegue Agostinho durante toda a sua vida, que ele se debruça para traduzir a sua essência, esmiuçar a sua origem, no seu mais profundo questionamento ou justificativa, talvez, a tudo o que havia declarado nas suas “Confissões”, obra terminada em 398: “Arrebatava-me os espetáculos teatrais, cheios de imagens das minhas misérias e de alimento próprio para o fogo das minhas paixões”.(Livro III, 2.2) Uma prova do quanto Roma, no seu erotismo, fascinava sua gente. E Agostinho era um desses cujo fogo ardia de desejo a ponto de declarar: “Era para mim mais doce amar e ser amado, se podia gozar do corpo da pessoa amada(...)” (Livro III-1.1)

Não era fácil manter a castidade que a Igreja necessitava. Não, simplesmente a castidade sexual, a abstinência do coito, porém a do pensamento, da malícia, do erotismo e da libido que já havia experimentado. Como fazer coabitar a pureza com a malícia plantada e germinada dentro de sua alma? Como evitar o desejo, se um simples lampejo de prazer fazia tremer seus nervos enquanto seu sexo se revelava vivo? Não seria a razão para que tenha dedicado dez capítulos do livro “A Cidade de Deus” para tratar da “libido”? O texto é uma outra confissão de quem não consegue compreender o seu próprio corpo. Um questionamento a Deus como se Este tivesse criado o pecado. E finalmente um elogio ao pecado, como a essência da criação: “Não temos a menor duvida de que o crescer, multiplicar-se e povoar a terra, segundo a bênção de Deus, é dom do matrimônio, instituído por Deus desde o princípio, antes do pecado, ao criar o homem e a mulher. O sexo, evidentemente, supõe algo carnal. E a essa obra de Deus seguiu imediatamente sua bênção.”(Livro II- Cap. XXII)

Esta, no entanto, é apenas uma questão que cede lugar, a um problema inda maior, no entendimento do Santo: “A libido surgiu depois do pecado e, depois do pecado, nossa natureza, pudica, despojada do domínio que tinha sobre o corpo, sentiu esse desarranjo, adverti-o, envergonhou-se dele e cobriu-o”. (Cap.XXI) Qual o sentido real que tem em mente acerca do significado de libido? Para ele é muito mais que o desejo, mais do que a ereção. É ter consciência do que se passa consigo mesmo. É algo que ultrapassa o lado fisiológico e se instala no aspecto moral e se mistura com o erotismo que é fruto do homem malicioso que conheceu o pecado. Um questionamento muito parecido com o que Paulo faz em sua Carta aos Romanos, capítulo 7 versículo 7: “(...) mas eu não conheci o pecado senão por intermédio da lei. Pois eu não conheceria a concupiscência se a lei não dissesse: Não cobiçarás.” Portanto, a considerar este enunciado, se o pecado é uma conseqüência da lei, logo a libido também o é. Isto, levando em conta, que para Agostinho a libido só deixa de ser fisiológica, pela plena razão do homem sobre o seu ato. Caso contrário, o desejo sexual não viria acompanhado do erotismo. É como se para ele, a bênção de Deus para a união entre o casal no Éden não previsse o pecado. Ou se o sexo não representasse (ou não pudesse representar) o prazer e sim apenas a função de procriar. E isto pode até ser assim compreendido sobre o aspecto teológico, mas não sobre o lado humano. Deus diz apenas: “crescei e multiplicai”. O resto é uma conseqüência que Agostinho não consegue digerir. Indo mais além, este pensador traz consigo o problema ao seu próprio tempo e a si mesmo. Imagina como pode ser pecado algo inerente à sua natureza humana. Uma força que vai além de toda a espiritualidade que tanto buscava: “É verdade que a ordem natural ao corpo antepõe o espírito; contudo, o espírito domina com maior facilidade o corpo que a si mesmo. Mas a libido de que tratamos é tanto mais vergonhosa quanto o ânimo não tem poder absoluto sobre si mesmo, para não agradar-lhe, nem sobre o corpo, para mover-lhe a vontade, não a libido, que mova tais membros vergonhosos.”(Cap.XXIII) Para ele a libido é a própria ereção. Isto deveria ser uma angústia em sua vida a medida em que tentava vencer seu próprio desejo sexual, para viver em harmonia com Deus.

Agostinho reconhecia que não tinha poder sobre si mesmo em relação a seu próprio desejo, e a sua própria libido. E este tormento é revelado com a profundidade pueril de um adolescente que não consegue compreender suas transformações. Envergonha-se do funcionamento de seu corpo. Talvez por isso declarasse: “(...) eu provo do mal que reprovo.” Se não era possível vencer o pecado, pelo menos, tentar compreendê-lo. E lá no Cap. XXIV, finalmente chega a conclusão de que a libido é apenas fruto da malícia e do erotismo vulgar quando escreve: “Ali(se referindo ao Éden) o homem semearia e a mulher receberia o sêmen, quando e quanto fosse necessário, sendo os órgãos da geração movidos pela vontade, não excitados pela libido.” Um jogo de palavras que substitui “libido” pela simples “vontade”. O que sabemos não ser verdade. Não basta a vontade, sem a libido e sem a ereção para que se tenha um ato sexual. O que Agostinho queria, realmente, era conjugar a relação marital a uma esfera de santidade que estivesse acima daquilo que considerava tão vergonhoso: a libido. Sua busca incansável pela santidade esbarrava em sua própria natureza humana e pecaminosa. Portanto a melhor forma de encarar o pecado era admitir que ele só existia por causa da lei.





E-mail: beneditora@hotmail.com



domingo, 2 de outubro de 2011

LEONARDO DA VINCI SOFREU ABUSO SEXUAL NA INFÂNCIA - TEXTO COMPLETO

LEONARDO DA VINCI SOFREU ABUSO SEXUAL NA INFÂNCIA

Benedito Ramos (*)

É Freud e não eu que levanta a suspeita de que Leonardo teria sofrido abuso sexual na infância.
A revelação está em seu
livro “Leonardo da Vinci e uma Lembrança de sua Infância”. O papa da
psicanálise enxerga este pormenor, num texto interrompido, onde o artista pára de falar do vôo dos
abutres, por causa de uma recordação de sua mais tenra infância. Leonardo lembra de um grande abutre
que se aproxima de sua cama e começa a fustigar-lhe a boca com a cauda. Freud vê a observação com
um simbolismo particular. O abutre seria um homem e sua cauda o pênis. O verbo fustigar, empregado
para descrever a cena tem origem no formato de uma coluna – o fuste, e significa movimentar à força.
Trata-se, portanto, de uma felação forçada.
Venho estudando Da Vinci desde 1974, quando publiquei “Mona Lisa Um Auto-Retrato de
Leonardo da Vinci”. De lá para cá, já li o bastante para publicar em jornal local, a série “Leonardo o
Homem e o Mito”, quase de memória, logo que perdi a visão do olho direito. E nunca havia parado
para pensar sobre a observação de Freud. Só recentemente, veio-me a idéia de pesquisar quem seria
esse “abutre” o qual se refere Leonardo.
É preciso, primeiro, entender que Leonardo nasceu de uma relação com uma aldeã de nome
Caterina. Piero da Vinci, tabelião conhecido e poderoso, não desposou a jovem e tomou-lhe o filho
para criar. O menino viveu como bastardo em companhia do pai, que não o encorajou à universidade,
ao contrário, meteu-o na oficina de Andrea del Verrochio para ser um artesão. Desta convivência
vamos testemunhar sua indiferença, quando em 1476, o filho é acusado de manter relações sexuais com
o jovem Giacoppo Saltarelli, que servia de modelo ao atelier de Verrochio.
Foi um dos momentos mais difíceis de sua vida e culminou com a sua ida para Milão, após o
encerramento do processo judicial. Há, nesse período, uma anotação em seus escritos, que não é de
Leonardo mas de alguém muito próximo: “Lionardo meu Lionardo por que esta dor?” Seu nome à
maneira florentina revela familiaridade. Talvez seja o tio Francesco, único parente que esteve ao seu
lado durante o processo. Mais velho que Leonardo 16 anos, Francesco vivia na casa paterna com Ser
Piero, seu irmão e o restante da familia. Sua rara biografia diz que nunca trabalhou e nunca se casou.
Ao morrer deixou-lhe uma propriedade – Il Brotto, objeto de litígio com os irmãos do artista em
1507. No entanto, não há anotações sobre o tio nem comentário algum que revele o nível de sua
amizade por este. Para alguém tão cioso por registros isto pode, no mínimo, significar indiferença.
Seria fácil para seus biógrafos dizer que Da Vinci, após o incidente “Saltarelli”, teria ficado
quieto e, embora não tenha se casado ou tido nenhuma ligação com mais ninguém, tenha vivido
sozinho até a morte. Seria fácil dizer muita coisa desta figura enigmática da qual o historiador Paolo
Giovio teria dito que tinha o “rosto mais belo do mundo”. Não seria difícil lembrar a sua farta
compleição muscular, a sua vasta estatura, sua cabeleira loira com barba encaracoladas ou sua voz
aguda e estridente. Leonardo era uma figura marcante, principalmente pela sua aparência principesca.
Mas, escarafunchando melhor suas ações vamos ver que este dândi renascentista nunca foi santo.
Por volta de 1490 Leonardo trabalhava para o Duque de Milão Ludovico Sforza, chamado – O
Mouro. Nesta ocasião recebe ordens para ir até Pavia, onde naquele momento de paz, o Senhor de
Milão dedicava-se a urbe de sua amada cidade natal, berço da civilização lombarda. Afinal, o artista ao
enviar seu currículum ao Mouro, só faltou dizer que fazia mel de abelha. Razão de sobra para
encarregar-lhe a tarefa de inspecionar, juntamente com Mestre Giovanni Amadeo a nova catedral, obra
do arquiteto milanês Francesco di Giorgio Martini. O resultado é que a viagem rendeu-lhe bastante
experiência, sobretudo na arquitetura, considerando que declarava-se e, almejava ser, engenheiro

militar. Mas nem por isso, deixou de medir e medir espaços e entrevistar operários. Foi nessa época
que desenhou cúpulas em formas de domos, porém nada exepcional ou realizado, apenas esboços, hoje
folhas do “códice Atlanticus”.
No entanto, há algo exepcional que anota em seus cadernos no dia 23 de abril de 1490. Eis o
texto: “(...) comecei este livro e recomecei o cavalo”. Refere-se ao cavalo do monumento que seria
dedicado a Francesco Sforça, o pai de Ludovico. Também anota: “Giacomo veio viver em minha casa
no dia de Santa Maria Madalena, 22 de julho de 1490, ele tem dez anos de idade”. Quem era este
Giacomo? Na verdade trata-se do filho de um “contadino”, ou “matuto pobre” numa tradução mais
clara, chamado Giovan Pietro Caprotti. Ele o teria entregue a Leonardo para viver em sua oficina, para
aprender um ofício. Isto era muito comum na época. Mas no dia seguinte aparece nas anotações do
artista algumas compras para o garoto: “ (...) eu lhe fiz talhar duas camisas, um par de calções e um
gibão, mas quando guardei o dinheiro para pagar essas roupas, ele o roubou na escarcela, embora nunca
tenha podido fazê-lo confessar o furto, estou disso absolutamente certo”. Antonina Vallentin em sua
biografia de Leonardo relata o fato e acrescenta: “ o rapazinho cujo rosto correto seduzii-o pela sua
beleza, mas estava tão desprezado, tão miserável, que ele se vê obrigado a comprar-lh, no dia seguinte,
duas camisas, calças e um casaco. Gacomo dá cabo dos seus fatos em pouco tempo. Chega mesmo a
dar uso a 24 pares de sapatos em um ano. Esta manutenção é muito dispendiosa e Leonardo anota as
despesas que lhe ocasiona a presença da criança. Ela é tão discuidada na sua disciplina moral como no
trajar e rouba dinheiro que Lonardo põe de lado. Po mais que o interroguem com severidade não é
possível obter uma confissão, escreve em seu caderno”. Este foi o primeiro de muitos desgostos que
passou por causa do menino. E não foi à-toa que em sua oficina lhe deram a alcunha de “salai”,
provavelmente, uma forma dialetal de dizer “senza alá” ou “s’alai”, que passaria a história como Salai,
ou “sem Deus”. Isto porque o menino salai, mesmo aprontando todas, continuou a ser mimado por
Leonardo que o vestia ricamente. Um exemplo está no inventário de sua mala em 1505, além de suas
roupas, “(...)uma túnica atada à francesa, pertencente a Salai, uma capa francesa, que era do Duque de
Valentinois ( o 1.º Duque foi Cesar Bórgia), uma túnica de fazenda flamenga cinzenta” . Isto sem
contar aneis, fitas, brocados e prata. Deste menino diz seu biógrafo-mor Giorgio Vasari: “ Leonardo
acolheu como aluno o milanês Salai, cheio de graça e de beleza, com seus abundantes cabelos
encaracolados, de quem o mestre muito gostava, muito lhe ensinou em arte, mas em certas obras, que
em Milão se diz serem de Salai, Leonardo interveio”. É importante advertir ao leitor que o texto
Vasariano de “Le Vite” serviu para dar nome a “Mona Lisa” e outras obras desconhecidas, porém é tão
fantasioso que chega a considerar um “milagre” o nascimento de Da Vinci. Ele nunca chegou a
conhecer o artista, que quando morreu só contava com cinco anos de idade. Fez sua biografia apenas
por informações colhidas em Florença. Serge Bramly repara Vasari, dizendo que Leonardo tentou
inculcar em Salai os rudimentos da arte, mas que este nunca se esforçou para aprender. Porém uma
coisa é certa, e isto nos chama atenção, o modo como Vasari refere-se a “graça e beleza” do jovem,
atributos que teriam encantado o mestre florentino, a ponto de tomar o garoto para si, assumindo todas
as responsabilidades de um “pai”. Afinal, não há como dizer que Salai tenha sido seu aluno ou
empregado. A relação entre ambos é ambígua demais, na visão da maioria dos historiadores. Ninguém
ousa a fazer conjecturas, mas a fragilidade de carater do garoto, certamente, punia Leonardo com suas
travessuras. E este se sentia refém a ponto de continuar a fazer-lhe os gostos mais extravagentes.
Principalmente, porque sua herança natural de notário, o compelia a administrar bem suas finanças,
anotar em seu livro caixa, todas as suas despesas. Poucos artistas de sua época viviam tão bem,
financeiramente. Leonardo não tinha um ou dois aprendizes, tinha um séquito de jovens que o
acompanhavam a toda parte.

Leonardo retratou o menino Salai por diversas vezes, sempre com cabelos encaracolados, nariz
longilíneo, olhar vivo e rosto quase feminino. E diga-se de passagem, sua androginia, tão ao gosto
renascentista, seria suficiente para que não precisasse buscar outros “Giacoppo Saltarelli”, para servir
de modelo para suas vênus, como em Florença, no ano de 1470. O jovem viveu em sua casa por quase
30 anos, sem nunca se tornar um pintor, um escultor ou um artesão menor. O catálogo – Classici
dell’Arte da Editora Rizzoli, na página 110 traz a seguinte observação: “ Salaino(Salai), detto Andrea
Caprotti – aluno predileto de Leonardo. Não deixou obra alguma documentada, como alguns teriam
mencionado a cerca de sua participação dos modos de seu mestre em um tenue e incerto
sfumato”(tradução nossa). Isto significa, que Salai apenas viveu na casa do artista até a sua morte. O
mais interessante é que em Amboise, na França, trabalhando para Francisco I, somente três pessoas
tiveram soldos anotados nos registros reais: Leonardo, Melzi e Salai, este último “cem escudos,
entregues de uma só vez a Salay”, da forma como escreveu o servidor real, que também anotou o nome
do mestre como Lynard de Vince. E um outro fato muito interessante é o testamento de Da Vinci, feito
em 23 de abril de 1519, por um notário de Amboise. Para Salai deixou metade da vinha que Ludovico
Sforza – O Mouro, havia lhe ofertado, inclusive com uma casa que ali havia construido. Foi para lá
que ele foi após a sua morte e lá ficou até ser alvejado por um arcabuz em 1523.
Salai, juntamente com Giovanni Boltrafio, Cesare dal Sesto, Marco d’Oggionne e Francesco
Melzi, estiveram com Da Vinci até a sua morte em 2 de maio de 1519, no solar de Cloux, perto de
Amboise, na França. É muito difícil dizer o quanto o rosto ou o corpo inteiro de Salai não está
impregnado em suas obras. Quem teria sido realmente o “Homem Vitruviano” , aquele onde o artista
descreve as proporções humanas? Salai? É muito difícil não crer nesta relação de alcova, facilitada pela
licenciosidade de um rapaz que sabia que era desejado. Comparações que o artista faz, explicitamente,
num desenho, entre o velho, com sua decrepitude, e o belo jovem, possívelmente Salai. Leonardo
conhecia muito bem aquela relação que tanto o enojava, quando seu tio Francesco o molestou. O
odiava por isso. Mas fazia, exatamente, a mesma coisa, dissimulado, travestido de pai, bondoso, afável,
comprando e gastando com o garoto - o seu brinquedo predileto. Inegavelmente, o ciclo se completava.
Diferentemente, de Leonardo que ignorou o tio em seus escritos, Salai nunca deve ter atingindo a uma
maturidade moral e financeira a ponto de sair da companhia do “mestre”, porém nunca deixou de
estorquir suas finanças, nem de buscar privilégios. Era sua vingança, também silenciosa e dissimulada.
Da mesma forma que o tio, o sobrinho procurou recompensar o mal que fez ao garoto, com presentes e
até uma polpuda herança, privilegiando-o em seu testamento.
Há um trecho da obra de Dimitri Mereikowski, autor da obra: O Romance de Leonardo da
Vinci que vale a pena mencionar: “Salai queixa-se às vêzes, amargamanete de tédio da sua vida
monótona e isolada, afirmando que, aparentemente, os discípulos dos outros mestres levam uma
existência muito mais divertida. Ele gosta de usar roupas novas, como as raparigas e fica triste por não
haver quem as admire. Por êle, estaria constantmente em festas, em meio de ruídos luzes, multidão e
olhares enamorados. Hoje o mestre(Leonardo), depois de escutar pacientemente, todas as mágoas e
queixas do seu favorito, num gesto habitual, passou-lhe a mão pelos longos cabelos encaracolados e
suaves, respondendo-lhe com um sorriso: - Não te entristeças rapaz, prometo levar-te ao
Castelo(Sforzesco) na próxima recepção de gala”. Da mesma forma, o autor se refere a uma passagem
quando Salai adoece. “O mestre trata dele pessoalmente, e não dorme, à noite, sentado à sua cabeceira.
Mas não quer sequer ouvir falar de remédios. Marco d’Oggionne trouxe algumas pílulas para o
enfermo. Leonardo deu com elas e as atirou pela janela afora.” Cabe um último acréscimo: Salai fez
Leonardo pagar o dote de sua irmã, para que esta pudesse casar-se. Ele pagou e não reclamou.
Uma curiosidade que passaria pela cabeça do leitor, seria a relação de Leonardo com os demais
alunos. Giovanni Boltrafio escreveu em seu diário: “Tornei-me discípulo do mestre florentino

Leonardo da Vinci em 25 de março de 1494. O mestre interessa-se por mim, como se eu pertencesse à
sua própria família, tendo descoberto que sou pobre, não quis aceitar o pagamento mensal que
havíamos combinado”. Boltrafio era noviço quando decidiu ir estudar com o artista. Isto pertubo-o
durante toda a sua vida. Sobretudo, pelo fato de sua inaptidão pela religião. Um dia chegou a dizer ao
mestre que as pessoas comentavam porque alí(na oficina) ninguém nunca ia a missa aos domingos.
Francesco Melzi era de descendência nobre, filho de Girolamo Melzi, capitão de Luis XII. Seu
filho, ainda adolescente anunciou que iria viver na casa de Mestre Leonardo, para estudar. Isto foi um
escândalo! O rapaz era de outra classe social, que não poderia sujar as mãos com tintas. Ninguém
nunca tinha visto tal coisa na Lombardia. E Melzi nunca abandonou Leonardo e sempre o tratou melhor
do que Salai. Já em idade avançada tinha paciência de estar ao seu lado, anotar seus escritos e cuidar
dele quando enfermo.
Cesare dal Sesto, este sim, o espreitava com desconfiança. Não se furtou de contar em contar a
Beltrafio, logo nos primeiros dias(segundo Mereikowski) que Leonardo havia sido processado por
sodomia, em 1476, em Florença. Dizia coisas que perturbava o ex-noviço, carola, que um dia chegou a
confessar, chorando, a Leonardo que teria ido assistir um sermão de Savonarola. Savonarola foi o prior
de São Marcos, em Florença que criticava as imoralidades do renascimento. Foi enforcado. E Leonardo
o guardou em seus desenhos, com a corda no pescoço.
É muito difícil, falar de Leonardo sem poupar esta riqueza de detalhes sobre a sua vida. Ele é
um enigma, assim como suas ações e suas obras. Que, aliás, o destino de cada uma delas é motivo para
um texto ainda mais longo. Fica para outra oportunidade.

* E-mail: beneditora@hotmail.com

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O GÓTICO MOURISCO DE DOM MANUEL

Benedito Ramos

O Abade de Suger, criador e inovador do Estilo Gótico, apelidado vulgarmente de Estilo dos Godos, certamente, nunca pensou que mesmo após a sua morte, aquela invenção arquitetônica fosse tomada por tanto ecletismo. Foi o caso do Gótico Tardio Português ou como ficou sendo conhecido, o Estilo Manuelino. Criado sob a responsabilidade dos arquitetos João de Castilho e Diogo Boitac o estilo floresceu a partir do século 16, em Portugal, no reinado de D. Manoel I(1494-1521), na época das grandes navegações.

É, talvez, modéstia demais tratar o estilo apenas como Gótico. Deste possui, com certeza a verticalidade própria, as nervuras dos tetos, os pináculos e a estrutura de apoio das paredes. No entanto, quando vamos a busca das ogivais janelas rendilhadas, de curvas amorcegadas e ornamentos apocalípticos, encontramos uma série de adornos materializados nas dominações almorávidas que permeou metade de Portugal e Espanha. Daí os portais morbiliformes, enrugados por múltiplas conchas marinhas, de concepção românica, baixos e profundos. Janelas em calcário macio, com talho vazado expressando uma folhagem exótica atada por cordéis sinuosos numa imagem labiríntica, como arabescos de mesquitas.

O lado português fica por conta dos entremeios brasonados com a esfera armilar, a Cruz da Ordem de Cristo, a mesma dos panos das caravelas e os pilares de colunetas trançadas à maneira salomônica do Baldaquim de Bernini, do Vaticano.

Mas é a liberdade do cânon gótico que faz do Estilo Manuelino uma atração à parte. Nada é tão peculiar do que os portais duplos, em forma de trevo ou folhagem. A ausência do sentimento tétrico que Vitor Hugo sentiu ao escrever “Nossa Senhora de Paris”, como declara, motivado pela inscrição de um anagrama grego sobre a morte, feita em uma das paredes da catedral. Esse gótico perdeu o ranço teológico com que Suger concebeu o estilo despojado e triste voltado para diminuir o fiel diante da grandeza de Deus. Ainda era preciso “ter fé para poder compreender”, como dizia Santo Agostinho. E isto ainda prevalecia mesmo no final da Idade Média nos tempos tomistas, não em Portugal, um Odisseu do século 16.

O mais interessante é que o Estilo Manuelino, que parece ter sido forjado por elementos góticos, está presente até nos pelourinhos provinciais ou nas fachadas das construções civis, mesclado com o Barroco ou Rococó. Longe de toda a formalidade, Portugal concebeu um gótico mourisco, na essência desta expressão, como diríamos no Brasil nordestino, “rajado” como um gato cinza escuro, porém muito particular.

O MAQUIAVELISMO ESSENCIAL - Benedito Ramos

Nenhuma sociedade está imune à experiência dualística da razão e da crença. Esta última é, com certeza, a cachaça cujo porre cria o sofisma necessário para sustentar a realidade cotidiana. É como a teológica “esperança da ressurreição”. Colocada numa balança, a crença possui um peso dobrado. Resumindo: o homem crer bem mais do que realmente pode experimentar.

Isto, posto numa sociedade de consumo e ao lume do capitalismo, que divide os homens pelo dinheiro que possui, a crença é o pilar que acode o telhado da realidade. É preciso crer em dias melhores. O Brasil vai ter a reforma agrária que precisa. O riacho salgadinho será despoluído. Não faltará alimento na mesa do brasileiro. Enfim, Papai Noel existe. “...seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem”, como diz a música de Octávio Filho.

Em meio a este cenário, nos arriscamos a dizer que a sociedade prefere viver personagens de si mesma e não a sua própria vida. Afinal, esta é, quase sempre, de uma realidade tão crua que este maquiavelismo essencial se torna premente para sua sobrevivência. Amar os inimigos ainda é muito pouco quando não se consegue derrotá-los. É preciso dar gáudio ao verdugo e sorrir até tombar do cepo. A verdade é cruel demais e a mentira pode ser a chave da felicidade. Já houve uma época em que se podia dizer que “as aparências enganam”. Hoje, com certeza, são as aparências que importa e a realidade é subjetiva. Quem quer saber a maloca que você se esconde quando o seu carro causa inveja? Qualquer sacrifício vale a fita pela finta.

Parece crime hediondo a ética, quando com meias verdades se ganha lauréis. A sociedade é livre para escolher seus heróis. Vale, portanto, alguma coisa o ideário que você escolheu se a fome lhe bate a porta? Onde termina o caminho da solidão social? Desacompanhado, nem “minoria” você é, para acudi-lo um “órgão de defesa”. Ninguém cria uma ideologia para si mesmo. Quem não tem competência, para se fazer crer, aceita a crença dos outros. É assim que o mundo funciona. Pior é guardar-se no ceticismo e crer apenas no mito da verdade como elemento transformador. Paciência, até hoje a fórmula da Coca-Cola é um segredo e nem por isso deixa de ser tão apreciada.

Não pense leitor amigo, que esta pachorra sua em fiar-se decanato, numa sociedade interesseira como a nossa, val coisa alguma. É preciso bem mais que se fazer douto, fora dos átrios dos compadrios. Nada mais, maquiavelicamente, correto do que conhecer os últimos atores sociais, para sobrepujar os editos.